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DICAS ONLINE

ANO V

DATA: 27-nov-2011

422

DESTAQUES DESTA EDIÇÃO:

- É proibido

- O verbo chegar

- Demais e demais

- Crase de novo

- Detalhes tão pequenos


Do nosso cotidiano

Rapidinha

A regência de chegar

Deu na imprensa: "A partir de 1º de julho de 2014, ao chegar em outra localidade da UE, os usuários poderão fazer um contrato com a operadora".

Bobeio na regência. A gente chega a algum lugar. Melhor: A partir de 1º de julho de 2014, ao chegar a outra localidade da UE, os usuários poderão fazer um contrato com a operadora.

Questão de companhia

Assinante de Belo Horizonte, MG, depois de alguns comentários elogiosos a Dicas, pergunta: “Prezado professor, qual o correto: É proibido entrada de estranhos? É proibida entrada de estranhos?"

oooOooo

Sempre a dúvida quando lemos as plaquinhas em áreas públicas e privadas. E a questão aparece em provas a torto e a direito. Diante dela, não dá outra. Enorme interrogação paira na nossa cabeça. O melhor é fazer de conta que entendeu a mensagem apenas pela leitura. Agora não dá para inventar na escrita.

Então, vale repetir a dica. Olho na companhia do sujeito. Se o mandão vem determinado por pronome ou artigo, a locução se flexiona. Caso contrário, mantém-se imutável: É proibido entrada de estranhos. / É proibida a entrada de estranhos. / É necessário paciência. / É necessária muita paciência. / Não é necessário inspetoras na escola. / Não são necessárias as inspetoras na escola. / Água é bom para a saúde. / Esta água é boa para a saúde.

Para gravar:

Substantivo + é bom / é preciso / é proibido

Em construções desse tipo, quando o substantivo não está determinado, as expressões "é bom", "é preciso", "é proibido" permanecem no singular. Maçã é bom para a saúde. / É preciso cautela. / É proibido entrada.

Mas atenção, gente boa, como visto, quando há determinação do sujeito, a concordância efetua-se normalmente. A flexão é obrigatória. É proibida a entrada de meninas. / É proibido entrada de meninas.


 

Prof. Hélio Graça
Editor de Dicas

 

 

Importante: os destaques do texto inicial são da Casa e trazem contribuições de manuais de estilo de importantes jornais do país.



De edições anteriores
Há incorreção nesta frase?
 
"São cientistas de renome que já ocuparam funções importantes no país, como, por exemplo, a chefia do Inpa." (Edição 399)
 
Pegadinha anterior
 

A frase deveria ser reescrita assim:
 

“Às vezes ele bebe um pouquinho de mais.” (Edição 398)
 
Comentário:
 
Existem duas palavras enganadoras. São demais e de mais. Ambas, formadas pelos mesmos elementos, se pronunciam do mesmo jeitinho. 

Pra acertar sempre, guarde a dica:

Demais = muito: Comi demais (muito). Ela é bonita demais (muito bonita). / Falou demais (muito) e caiu em contradições.

De mais = a mais, contrário a de menos: O Judiciário tem processos de mais e juízes de menos. / Não vejo nada de mais no caso. Às vezes ele bebe um pouquinho de mais.

Por Dad SquarisiDicas

dadsquarisi.df@dabr.com.br

Detalhes tão pequenos de nós dois


A coluna de domingo deu a palavra aos leitores. Alguns apresentaram dúvidas. Outros fizeram comentários. Um deles criticou o verso “detalhes tão pequenos de nós dois”, do rei Roberto Carlos. “Detalhes são sempre pequenos. Não me venham com a tal licença poética”, escreveu o professor Toledo. Ops! Choveram protestos. Os inconformados exigiram manifestação a respeito. Eles mandam. Vamos lá?



Licença poética

O agente 007 tem licença para matar. O artista tem licença para voar. Em bom português: pra chegar às alturas, poetas e romancistas podem tudo. Eles criam palavras, pisam a gramática, dão novos sentidos a velhos vocábulos. É a licença poética.

A carta branca se explica. Machados, Clarices e Bandeiras são tão grandes que não cabem em camisas de força. O que existe não basta. Eles precisam de mais, muito mais. Como satisfazer a necessidade? Só dando asas à imaginação, dando passagem à invenção.

Quando a grande dama do teatro foi pro outro mundo em 1969, Drummond traduziu a perda com esta frase: “Cacilda Becker morreram”. O poeta tropeçou na concordância? Nem pensar. Com o sujeito singular e o verbo no plural, ele traduziu o enorme prejuízo. O Brasil não perdeu uma atriz. Perdeu muitas.



Olho vivo

Nem todos são Drummond. Para chegar lá, o mineiro de Itabira subiu todos os degraus da língua. No topo, podia escolher. Mário de Andrade explica: “É quase lapalissada afirmar que só tem direito de errar quem conhece o certo. Só então o erro deixa de o ser para se tornar um ir além das convenções”.



Vício

Pleonasmo é palavra sofisticada. Nasceu grega. Fez as malas e avançou fronteiras. Desembarcou na língua de Camões. Lá e cá o significado se mantém. É superabundância: repete-se uma ideia com palavras diferentes. Subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro e sair pra fora são os exemplos mais repetidos. Há mais, muitos mais. O professor Toledo apresentou um fresquinho. Trata-se de “espernear com as pernas”. Ora, assim como só se pode subir pra cima, descer pra baixo, entrar pra dentro e sair pra fora, só se pode espernear com as pernas.

Convenhamos. As redundâncias frouxas, que não trazem nenhum reforço à expressão, são vícios. Eles ganham nomes pra lá de chiques. Além de pleonasmo, tautologia, parissologia, batologia. Comer com a boca? Ora, basta comer. Ver com os olhos? Claro que sim. Enfrentar de frente? Só pode. E assim vai. Xô, excessos!



Tolerância

Há pleonasmos aceitos. Ao repetir a ideia expressa, acrescenta um especificador pra lá de bem-vindo. Às vezes, o algo mais dá graça e força à expressão. É o caso do verso “detalhes tão pequenos de nós dois”. É o caso também de “ele sabe pescar peixe, mas não sabe pescar homens”. Ou de “ver com os olhos não é o mesmo que ver com os dedos”. Sejam bem-vindos!



Leitor pergunta

Não sei empregar onde e aonde. Pode me ajudar?
Carlota Moura, Porto Alegre

Onde ou aonde? Quase sempre onde. O dissílabo indica lugar. Quer dizer em que lugar: Onde (em que lugar) você nasceu? Onde (em que lugar) estamos? Onde (em que lugar) eles trabalham?

O aonde vai além. Também indica lugar. Mas faz uma exigência — pede verbo de movimento regido pela preposição a. É o caso de ir, chegar, dirigir-se:

Quem vai vai a algum lugar: Vou a Belô. Foi à piscina. Iremos a Brasília.

Quem chega chega a algum lugar: Cheguei ao trabalho atrasada. O avião chegou pontualmente a Natal. A turma chega à competição com duas horas de antecedência.

Quem se dirige se dirige a algum lugar: Ao desembarcar, dirigiu-se imediatamente ao hotel. Todos se dirigem ao estádio. Dirige-se ao Palácio do Planalto sem cerimônia.

Moleza, não? Por que, então, tantos tropeços? O maior problema reside nas perguntas. Se o verbo preenche as duas condições — ser de movimento e exigir a preposição a — dá passagem ao aonde: Aonde você vai? Aonde eles foram ontem? Aonde o avião chegou? Ao desembarcar, aonde ele se dirigiu?

A regra se mantém nas perguntas indiretas e nas respostas: Gostaria de saber aonde você vai. Não sei aonde ele quer chegar. Talvez ele saiba aonde se dirigir ao desembarcar.



Recado
“Em cada homem de talento existe, escondido, um poeta. Ele se manifesta no escrever, no ler, no falar ou no ouvir.”
Marie von Ebner-Eschenbach


 

De edições anteriores

Há incorreção nesta frase?
 

“Estava Jaqueline a caminho de casa quando ligou para um assessor que a comunicou da vitória.” (Edição 399)

 
Pegadinha anterior 2
 

A frase  deveria ser

reescrita assim:
 

“O carro veio a reboque." (Edição 398)
 

Comentário:
 
Reboque é nome masculino (o reboque). A crase é 100% feminina. Ocorre do encontro da preposição a com outro a, em geral o artigo. Diante de substantivos machinhos, a fusão não tem vez.

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